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Atualização semanal Última atualização 9/9/2010 14:29:08

Abecs troca comando em meio a mudanças no setor

Fernando Travaglini, do Valor Econômico

O setor de cartões tem sofrido ataques de todos os lados. Os lojistas sempre reclamaram das taxas e os clientes não se conformam com juros de 250% ao ano cobrados no rotativo. Agora, o governo federal resolveu entrar na briga com decisões que podem mudar o sistema regulatório dessa indústria: o Banco Central prepara um relatório para o fim de setembro que pode trazer alterações profundas no setor e na quinta-feira o Ministério da Justiça determinou o fim da exclusividade da VisaNet para o credenciamento da bandeira Visa.

É nesse contexto que Paulo Rogério Caffarelli, vice-presidente de cartões e novos negócios de varejo do Banco do Brasil, assume a presidência da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), substituindo Aldemir Bendine, que desde o ano passado comandava a associação e, em abril, passou a presidir o BB. Segundo Caffarelli, o objetivo é dar continuidade ao trabalho já iniciado.

"Seria muito importante que o presidente Ademir Bendine continuasse como presidente da Abecs, até pelo peso institucional. Mas vocês estão acompanhando no mercado o papel do Banco do Brasil exatamente nesse momento de retomada do crescimento econômico. Concomitantemente a isso, há esse debate da regulação do mercado de cartão de crédito. Isso acaba sobrecarregando a figura do presidente. Então a ideia foi que houvesse uma substituição e a diretoria da Abecs me indicou para o lugar do Bendine", disse.

Caffarelli acredita que a Abecs tem um papel fundamental nesse momento justamente em função deste debate da regulação da indústria de cartões. A associação enviou em julho proposta ao BC para tentar resolver os problemas citados pela autoridade em recente relatório. Para o BC da forma como está estruturado o setor de cartões é pouco competitivo, concentrado, com fortes barreiras de entrada e com alto custo para os lojista. "Nossa visão é de aperfeiçoar o sistema, respeitando a evolução desse meio de pagamento. Há países que avançaram tanto na regulação que apresentaram involução".

Para a Abecs o fim da exclusividade das credenciadoras em relação às bandeiras vai solucionar muitos desses entraves. "Esse é um assunto resolvido. A Redecard não tem exclusividade com a MasterCard e a VisaNet não terá mais em junho do ano que vem. Com isso resolvem-se a competição entre as empresas e também o compartilhamento das máquinas leitoras (POS). Hoje, metade do faturamento já ocorre de maneira compartilhada."

Apesar disso, na semana passada a Secretaria de Direito Econômico (SDE) do Ministério da Justiça suspendeu a exclusividade da VisaNet com relação a Visa. Caffarelli avalia que esse prazo anterior, até 2010, era necessário. "Para rodar um novo tipo de cartão em um adquirente demora quase um ano para se fazer a integração tecnológica. Entendemos que o prazo de um ano seria razoável para se adaptar a essa realidade".

Caffarelli também citou outros pontos que são questionados em relação à indústria de plásticos, como o prazo de pagamento para o lojista, hoje de trinta dias. Segundo ele, isso está vinculado à possibilidade de o cliente também ter até 35 dias sem juros para quitar a fatura. "Esse é um atributo do Brasil. Se mexer aqui, talvez não tenhamos mais os 35 dias. Seria interessante tentar manter esse estrutura".

Já do ponto de vista do cliente, Caffarelli diz que os juros de até 250% ao ano no crédito rotativo são explicados pela inadimplência e pelo fato de os bancos assumirem todos os riscos do setor. A inadimplência, segundo a Abecs, é de 9,8% da carteira total, que inclui as faturas a pagar, o parcelado sem juros e o crédito rotativo. Considerando apenas o estoque de rotativo, o percentual de atrasos acima de 90 dias atingiu em junho 28,45%, de acordo com dados do Banco Central. Entre 15 e 90 dias, o percentual é de 13,27%.

Apesar desses riscos regulatórios, o setor de cartões deve continuar com seu crescimento de 20% ao ano, acredita o novo presidente. A indústria movimentou no ano passado R$ 375 bilhões e a expectativa é que esse patamar atinja R$ 800 bilhões em cinco anos. A carteira de recursos dos cartões soma aproximadamente R$ 100 bilhões, sendo 25% desse total referente ao rotativo.

Além disso, esse setor é bastante rentável para todos os players. Entre 10% e 15% dos lucros dos bancos vêm de atividades que giram em torno da indústria de cartões, sejam as tarifas, o crédito rotativo ou as antecipações de recebíveis feitas com os lojistas. Já as credenciadoras VisaNet e Redecard lucraram juntas mais de R$ 700 milhões no segundo trimestre do ano.

 


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