SÃO PAULO - O Grupo Guararapes Confecções, controlador da Lojas Riachuelo, e a Globex Utilidades, administradora da rede Ponto Frio, começaram a adotar uma tendência internacional que tem ganhado fôlego no varejo: aumentar os juros nas compras parceladas como alternativa para incentivar a venda à vista. A estratégia visa a combater uma possível alta das taxas de inadimplência do comércio, em decorrência da redução do crédito e de alguns anúncios de demissões na indústria.
As redes, importantes players do mercado, começaram a modificar suas ações nesse sentido para atrair aos pontos-de-venda consumidores mais seletos, com dinheiro no bolso para o pagamento no ato, distanciando-se da prática da gigante Casas Bahia, pioneira na oferta do chamado parcelamento "a perder de vista".
Na Lojas Riachuelo a medida adotada na taxa de juros dos pagamentos parcelados foi elevá-la de 4,9% para 5,9% ao mês. Além disso, desde o mês passado a rede de vestuário eliminou o período de carência para início do pagamento, nas vendas a prazo, que chegava a 100 dias. "O cenário macroeconômico fez com que redobrássemos a atenção para conceder crédito ao cliente", afirmou Tulio Queiroz, gerente de Relações com Investidores da rede de lojas de departamentos nascida em Pernambuco.
Outra prova deste movimento é o volume de compras à vista na varejista no terceiro trimestre, que contabiliza um discreto aumento de 2,5%, chegando a 22,8% do total de vendas da rede. O private label Cartão Riachuelo teve participação de 59,8% nas vendas, ante 66,5% no mesmo período de 2007. De acordo com Queiroz, esta política de crédito deu sinais de mudança já no início do ano, com cautela na concessão de crédito e ênfase na escolha de melhores clientes. Inclusive, "nas operações de empréstimo pessoal, houve uma pequena redução da carteira".
Na avaliação de Flávia Ghisi, professora do Programa de Administração de Varejo (Provar/FIA), ao depararem-se com juros mais elevados, os clientes desistem de comprar com pagamento a prazo, pois seu valor final será muito alto. "Conseqüentemente, os comprador toma menos empréstimo, e as empresas reduzem o risco de calote, uma vez que parte da receita delas vem da carteira de financiamento", analisou a especialista em varejo.
Resultados
A controladora da Riachuelo (Guararapes) viu lucro líquido de R$ 24,496 milhões no terceiro trimestre do ano, depois de benefício fiscal, mostrando queda de 53,2% em relação ao mesmo período de 2007. O gerente de Relações com Investidores do grupo, Tulio Queiroz, crê que o cenário internacional impactará no nível de confiança do consumidor, podendo diminuir o consumo. Por isso, o preço será fator prioritário neste fim de ano.
Em entrevista recente ao DCI, Flávio Rocha, presidente da companhia, garantiu que os planos para 2009 permanecem sem alterações. "Investiremos R$ 250 milhões na abertura de novas lojas e concentraremos nossos esforços no Rio de Janeiro." A decisão da Lojas Renner de comprar a carioca Leader Magazine poderá tornar a conquista do mercado no estado um pouco mais fácil.
De olho no público de poder aquisitivo menor, a empresa da família Rocha - 82% de cujo capital estão sob seu controle - também enfocará a venda de produtos para o público infantil e feminino da linha "Vale a pena", com valores mais acessíveis voltados para esta parcela da população. A companhia, hoje com 96 filiais, pretende iniciar o mês de dezembro com 102 lojas. Em setembro, a rede implantou um centro de distribuição em Guarulhos (SP) que começou atendendo 17 lojas, e hoje soma 64.
Eletroeletrônicos
O Ponto Frio, segunda maior rede de eletrodomésticos, eletroeletrônicos e móveis, foi outra empresa que viu suas vendas à vista progredirem no último trimestre, ao atingir 39,1% frente aos 37% no mesmo trimestre do ano passado. O mesmo ocorreu com o private label Cartão Ponto Frio Flex - em parceria com o Unibanco , com 997 mil cartões emitidos desde setembro -, que detém 19% das compras, tirando expressiva fatia das vendas no tradicional carnê, que em 2007 estavam em 37,3% e atualmente perfazem apenas 12,9%.
O presidente da companhia, Manoel Amorim, destaca que a rede "passa por uma transição no modelo de financiamento, saindo dos carnês e migrando para operações com cartão de crédito. Melhoramos de forma significativa nossa operação", afirmou. A varejista incentiva os planos em até dez prestações, mas mantém as vendas com pagamento em até 24 vezes.
Formada por 445 unidades, 56 a mais que no mesmo trimestre de 2007, a companhia da família Safra reverteu a tendência de queda e alcançou lucro líquido de R$ 7,4 milhões, ante prejuízo de R$ 12,7 milhões em 2007. "Merece destaque o fato de termos logrado um crescimento saudável na receita. Cerca 30% das pessoas que pedem crédito nas lojas são atendidas", destacou Amorim.
Ainda nos resultados da companhia, o executivo comemorou o aumento do tíquete médio, resultado de dez lojas que foram inauguradas no trimestre com investimento de R$ 17 milhões. A política de desativar lojas não rentáveis ainda é mantida: duas lojas foram fechadas nos últimos meses.
A respeito da crise, o presidente avaliou que, se a situação não se agravar no Brasil, será uma boa oportunidade. "Players de grande porte, que são companhias familiares e de capital fechado, estão em situação delicada com a concessão de crédito e a subida da inadimplência", disse. Sobre estoque, ele afirmou que fez ótimas negociações com os fornecedores, com prazo mais longo e garantia de preço competitivo.