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Duração da crise define efeito na retomada

por Notícias às 09:48 de 19/05/2017 em Mercado de Cartões

FOLHA DE S.PAULO/SÃO PAULO | GERAL

Dúvida para economistas e investidores é se recuperação vista nos últimos meses será abortada ou apenas adiada

Cenário de insegurança põe em risco a melhora da confiança de empresários e consumidores, essencial para o fim da recessão.

A incerteza deflagrada pela delação de Joesley Batista deverá ter impacto negativo sobre a economia, que ensaiava uma recuperação.

A dúvida de economistas e investidores, nesta quinta (18), era se a crise política adiará ou abortará a retomada.

Segundo analistas, há dois riscos principais. O primeiro é que a insegurança que ameaça a continuidade do presidente Michel Temer no cargo afete a confiança de consumidores e empresários, que vinha subindo lentamente.

A expectativa de melhora da economia era vista como uma tendência muito positiva porque poderia levar a uma retomada do consumo e de investimentos. Com a volta da insegurança, esse processo pode ser congelado.

Outro motor da recuperação ainda incipiente era a expectativa de aprovação da reforma da Previdência.

Economistas do mercado financeiro consideram que as medidas propostas para conter o crescente déficit no regime de aposentadorias é essencial para garantir a solvência do setor público.

A crise dos últimos dois dias causou grande insegurança a respeito das chances de que a reforma seja aprovada caso Temer deixe o governo.

“O cenário é muito incerto, não dá para fazer prognósticos para amanhã”, diz Solange Srour, economista-chefe da ARX Investimentos.

As incertezas contribuíram para a forte desvalorização do real, a disparada dos juros no mercado futuro e a queda da Bolsa nesta quinta-feira.

O impacto dessa turbulência financeira sobre a economia real vai depender, segundo analistas, da duração da incerteza política.

Economistas ouvidos pela Folha ressaltaram que o cenário ideal seria uma solução rápida para a crise. Uma das possibilidades citadas como menos nocivas para a economia seria a substituição de Temer por alguém que se comprometa a continuar perseguindo as reformas propostas pelo governo atual.

No entanto, se as dúvidas sobre o futuro do presidente perdurarem por semanas, a tendência é que a variação nos preços de ativos financeiros —como o dólar e o valor de títulos públicos— afete a economia negativamente.

Para Jorge Simino, diretor de investimentos da Funcesp, fundo de pensão com R$ 27 bilhões em ativos sob gestão, a variável-chave para ser acompanhada daqui para a frente é o câmbio, que tem efeito importante sobre a trajetória de inflação.

Ele ressalta que o BC pode decidir reduzir o ritmo de corte de juros se avaliar que uma possível desvalorização do real pode levar a aumento de preços. “Os ativos mudaram de patamar. Serão semanas de emoção.”

O FUTURO DAS REFORMAS

Uma comissão especial criada pela Câmara dos Deputados aprovou no início do mês uma proposta de reforma da Previdência negociada com o governo. O projeto muda regras para aposentadorias e pensões, mas atenua o impacto do plano original do governo.

A Câmara aprovou em abril projeto que muda a legislação trabalhista, dá mais força para negociações entre sindicatos e empresas e abre caminho para a flexibilização de várias garantias oferecidas pelas regras atuais. O projeto agora está no Senado.

Projeto que cria um programa de recuperação para Estados falidos só precisa ser sancionado pelo presidente Michel Temer para virar lei. Ele abre caminho para o governo socorrer Estados como o Rio de janeiro, se adotarem medidas para controlar os seus gastos.

O QUE PODE ACONTECER

O projeto está pronto para ir a votação no plenário da Câmara, onde precisa do apoio de 308 dos 513 deputados para ser aprovado e seguir para o Senado. Com a crise, as dificuldades que o governo já tinha para unir sua base parlamentar em torno da proposta podem aumentar.

Antes da crise, o governo negociou um acordo com os líderes do Senado para que o projeto fosse aprovado sem alterações ainda neste mês, comprometendo-se a enviar depois ao Congresso uma medida provisória para alterar alguns pontos da reforma.

Como o projeto já foi aprovado pelas duas casas do Congresso, não há risco de não virar lei. Mas o tumulto na política pode atrapalhar as negociações necessárias para viabilizara ajuda financeira aos Estados que enfrentam dificuldades para pagar salários e fornecedores.